O conforto da estagnação
Polarização, preferência revelada e a ausência de um projeto de país
Às vésperas das eleições de 2026, o eleitor brasileiro parece dizer duas coisas ao mesmo tempo. Nas pesquisas de opinião, declara-se insatisfeito: em abril deste ano, 68% afirmavam que o país segue no caminho errado.1 Nas urnas, no entanto, reafirma a mesma escolha de sempre, dividida entre dois polos. Este ensaio se ocupa dessa contradição e propõe que ela não é um acidente, mas a chave para compreender o país.
A economia distingue há muito tempo entre preferências declaradas e preferências reveladas. As primeiras correspondem ao que as pessoas dizem querer; as segundas, ao que suas escolhas efetivamente demonstram. Quando as duas divergem, é prudente dar mais peso às segundas. Aplicado à política brasileira, o conceito produz um diagnóstico desconfortável: o brasileiro declara desejar mudança, mas revela, pelo voto, preferência pela permanência.
Os números sustentam essa leitura. Levantamento da BTG/Nexus de agosto de 2026 classifica 25% do eleitorado como lulistas convictos e 30% como bolsonaristas convictos.2 Mais da metade do país tem posição definida antes mesmo de a campanha começar. O sistema de dois turnos deveria, em tese, liberar o eleitor para votar em alternativas no primeiro turno. Ainda assim, o voto se concentra: na pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro, os dois principais candidatos somavam 76% das intenções de voto no primeiro turno.3
Convém, contudo, ser exato. O voto não revela que o eleitor esteja satisfeito com o país. Revela que o receio da vitória do adversário pesa mais que o desejo de transformação. O resultado prático é o mesmo: cada polo garante ao outro a sua razão de existir, e o equilíbrio se mantém.
Pode-se objetar que o eleitor não abandona os polos por falta de alternativas viáveis, e não por apego à permanência. A objeção, porém, descreve o problema em vez de refutá-lo. O que ela aponta é uma falha de coordenação: a viabilidade de uma candidatura não é um dado prévio; ela é construída justamente pelos votos que recebe. O eleitor que aguarda que uma alternativa se torne viável antes de apoiá-la garante que ela jamais se torne. Com dois turnos, o custo de se coordenar no primeiro é baixo, e ainda assim a coordenação não acontece. A ausência de opções, nesse sentido, não refuta a preferência revelada. É uma de suas consequências.
O mesmo padrão se repete fora das urnas. O Brasil aprovou reformas relevantes na última década, sob governos de orientações opostas: o teto de gastos, a reforma da Previdência e a reforma tributária. Em quase todas, porém, o impulso original foi diluído ou revertido. O teto foi abandonado poucos anos depois de criado, e a reforma tributária saiu repleta de regimes diferenciados obtidos por setores organizados. Aceita-se a reforma em tese, desde que o seu custo recaia sobre outros.
Os resultados refletem essa escolha. O PIB per capita levou onze anos para superar o pico de 2013, o que só ocorreu em 2024.4 A taxa de investimento, de 16,8% do PIB em 2025,5 permanece abaixo da média mundial, próxima de 27%, e muito distante dos mais de 30% sustentados por décadas pela Coreia do Sul.6 Os juros elevados que inibem esse investimento, por sua vez, refletem uma dívida pública que nenhum dos lados aceita conter. Não se trata de colapso, mas de acomodação. A ambição desenvolvimentista do século XX deu lugar a uma lógica de preservação de benefícios, de regimes especiais e de estruturas conquistadas ao longo de décadas.
O desenvolvimento, contudo, exige renúncia. Seus custos são imediatos e concentrados; seus benefícios, difusos e futuros. Nenhum governo a impõe sozinho: trata-se de uma decisão coletiva, que exige aceitar consequências desagradáveis no curto prazo.
Um projeto de país, nesse sentido, não precisa ser complicado. Começaria por uma regra fiscal crível, que estabilize a dívida e abra espaço para juros menores; juros menores destravam o investimento, hoje a principal restrição ao crescimento. Exigiria rever os regimes especiais e benefícios setoriais acumulados ao longo de décadas, e concentrar o esforço público no que eleva a produtividade: educação básica, infraestrutura e um ambiente de negócios mais simples. Nada disso é novidade. A dificuldade nunca foi saber o que fazer, mas aceitar quem paga a conta.
A história mostra que as sociedades raramente tomam essa decisão por iniciativa própria; em geral, ela é precipitada por uma crise. Israel estabilizou sua moeda em 1985, com inflação acima de 400% ao ano; a Polônia adotou o Plano Balcerowicz em 1990, após o colapso da economia planificada; o Peru e a Índia reformaram-se no início dos anos 1990, diante, respectivamente, da hiperinflação e de uma crise de balanço de pagamentos. Mais recentemente, a Argentina de Javier Milei iniciou seu ajuste após décadas de inflação crônica. Mesmo exceções aparentes, como a disciplina monetária de Paul Volcker nos Estados Unidos ou o pacto social irlandês de 1987, responderam a situações já insustentáveis; a diferença esteve em agir antes do colapso. As transformações mais duradouras, ao contrário das impostas com concentração de poder, foram aquelas que a sociedade aceitou democraticamente, por compreender o seu benefício.
O próprio Brasil conhece esse caminho. O Plano Real, em 1994, exigiu disciplina e paciência de uma população exausta de inflação, e funcionou, porque o custo de não agir havia se tornado visível para todos. Hoje, esse custo existe, mas é difuso. Não aparece em um índice mensal; aparece no crescimento modesto, no investimento baixo e em gerações que prosperam menos do que poderiam.
Daí o dilema. Se a sociedade não decidir mudar enquanto a escolha ainda está em suas mãos, é provável que a decisão acabe sendo tomada pelas circunstâncias, em condições muito menos favoráveis. A história sugere que esse é o caminho mais comum. Não precisa ser o nosso. Em 2026, o eleitor tem a oportunidade de alinhar o que declara ao que revela, e o voto pode deixar de ser uma escolha entre lados para se tornar uma declaração sobre qual país se deseja construir.
Notas
-
Ipsos, What Worries the World, Relatório do Brasil, abril de 2026. ↩
-
BTG Pactual/Nexus, Pesquisa Eleições 2026, rodada de 24 de agosto de 2026. ↩
-
Instituto Datafolha, pesquisa de intenção de voto para Presidente divulgada em 24 de setembro de 2026. ↩
-
FGV IBRE, Núcleo de Contas Nacionais, estimativas do PIB per capita em valores constantes, 2024. ↩
-
IBGE, Contas Nacionais Trimestrais, divulgação de 3 de março de 2026. ↩
-
Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook, séries de formação bruta de capital fixo. ↩